“Eu Lhes Ensinei Muita Coisa, Meus Druguinhos.”


A fim de esclarecimento, drugues seria um neologismo do escritor de Laranja Mecânica, Anthony Burgess, que simboliza algum companheiro de gangue, entendido que em um cenário onde distopia e realidade se confundem, a imagem de um vândalo associado a uma gangue era predominante no imaginário coletivo, e o Estado cumpria uma política criminal que o senso comum presumia ser cabível para os típicos seres patológicos da vida social.

Para os amantes da sétima arte, esta obra inspirou uma das grandes produções do diretor Stanley Kubrick, sendo um filme reconhecido por ter sido vanguarda para a cinematografia. Em sátira social, o filme consegue evidenciar, claramente, os malefícios dos mecanismos de criminalização e dos modus operandi das políticas criminais que são postos em pauta. Inclusive, o condicionamento psicológico imposto por um Estado anti-democrático sobre o personagem principal, em decorrência da pretensão de garantir eficácia plena à etiquetagem social de um criminoso, leva-o à seguinte pergunta: seria eu uma laranja mecânica?

De fato, uma visão artificial, robótica e programável é a intenção de um Estado que se sustenta na égide de uma biopolítica para controle dos corpos, como bem é aprofundado por vários teóricos, e entre eles, Michel Foucault, meu preferido. Entretanto, na obra cinematográfica, é válido pontuar uma cena em específico que remonta à temática desta coluna (alerta de spoiler): impossibilitado de reagir a um ataque de idosos, pois estava sob o condicionamento psicológico comportamental de uma técnica conhecida como Ludovico, Alex é salvo por dois policiais, seus ex-drugues, Dim e Georgie.

Para entender a semiótica da distópica realidade do policiamento, esta coluna foca nesta cena em específico, atinado que princípios basilares de um Estado Democrático de Direito, cotidianamente, são violados e nada fazemos a respeito. Então, porque não fugir da realidade para entender ela pelos filmes, já que, como dizia Saramago: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”.

No mesmo trilhar, Weber, notável sociólogo, a tempos discorria sobre o uso legítimo da força quando partida do Estado, cabendo-se o questionamento: existiria uma dialética cíclica entre ser escravo da dor dessa força e ser senhor praticante desses atos de força? Desde já, pontua-se que vários filósofos, principalmente Hegel, discorreram sobre isto, mas, a fim de didaticidade, na obra vemos um explícito exemplo deste paradigma. Com a deixa do Estado, pelo uso, teoricamente, proporcional da força, escalonando-a quando necessário, os ex-drugues Dim e Georgie possuíam liberdade plena para sua prática, que rapidamente demonstraram ser bastante afastadas da teoria.

Sem qualquer escrúpulos, os dois torturaram Alex, que já se encontrava em um estado perturbador de rotulação social pelos seus crimes, sendo julgado, inclusive, pelos que vagavam pela cidade sem qualquer propósito de vida. Apesar de não ser cabível detalhes da tortura, o caráter poético do afogamento foi mensurado na medida em que, imerso na fonte deste ciclo vicioso da maldade, os líquidos passam a entrar forçadamente no corpo do personagem, fazendo-nos questionar se este não seria o ciclo natural das coisas.

Por trás de toda esta sujeira, existe um complexo jogo político que sustenta toda essa estrutura, seja ela fictícia ou real. O poder é medido de acordo com macroestruturas, e a metáfora de Laranja Mecânica, neste caso, habita na primeira frase trazida nesta coluna, pois Alex era o chefe da gangue, e lá havia uma disciplina impositiva de sua parte perante seus drugues, os quais, muitas vezes, demonstraram-se insatisfeitos com sua posição social, entendido que havia um chefe com legitimidade para impor-lhes uma descomedida força regulatória.

Sob o falso crivo do Estado, a brutalidade se faz nos conformes da legalidade, e isso sim configura a verdadeira distopia. Os ensinamentos desumanos pregados pela metáfora do que representa Alex, na nossa sociedade, a instituição que, teoricamente, foi feita para proteção do povo, faz-se dessa atribuição para despejar atrocidades neste controle de corpos. As etiquetas ganham sua eficácia plena para as minorias sociais, tornando-as presas perfeitas para este sadismo, que será descrito, em diversas outras formas, nas futuras colunas, seja quanto ao seu modus operandi ou sua própria definição teórica sob um olhar da criticidade.

De fato, Alex ensinou muita coisa aos seus druguinhos…

Roberto Moura Pereira
Graduando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e membro do Além das Grades