Gênero e Sociedade: Por um Direito de (Re)Existir


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Inicio minha primeira coluna atravessada por vários sentimentos. Escrever sobre gênero, violência e sociedade particularmente me atravessa de tal forma que os autores clássicos, bem como os contemporâneos que se debruçam na temática, ainda não me alcançam. Por esta via, me utilizo do estado de arte. Da poesia e especialmente da música. Caio Prado, em 2014, nos chama a refletir em sua canção “Não recomendado” o corpo desviante, desVIADO à normativa social. O corpo que marca, que incomoda, que transgride. Guacira Lopes Louro em “Um corpo estranho: Ensaios sobre sexualidade e teoria queer”, nos provoca a pensar no paradoxo em que, as semelhanças que nos fazem refletir enquanto sujeitos identificatórios, é também o que nos causa profundos medos e repúdio, porque é justamente por essa “marca” que eu me assemelho ao outro e comungo com ele da experiência humana.

A experiência humana, se não atravessada por todas as suas humanidades, do que dela resta? O pudor? As máscaras? O refúgio utópico? Os armários? Em dados estatísticos analisados do “Relatório do Grupo Gay da Bahia” de 2021, o Brasil se posiciona em primeiro lugar no ranking dos países em que mais matam pessoas LGBTQIA+, onde a cada 29h uma pessoa entra para as estatísticas. 35% dos casos concentram-se na região do Nordeste. Em Pernambuco, nos deparamos com uma realidade ainda mais cruel, ficando na posição de 8º lugar dos Estados brasileiros onde mais matam e violentam pessoas LGBTQIA+. Ao retomar a canção de Caio Prado, a sensação de dizer “não a aberração” é cruel e concreta. No “Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2021”, compreendendo o período de 2011 a 2021, 1.417 pessoas Trans foram assassinadas, em sua grande maioria com requintes de crueldade.

Enquanto psicóloga, me pergunto quantas dessas vítimas já não estavam mortas psiquicamente, mesmo com seu sangue pulsando, seu suor lavando seus corpos e lágrimas tomando conta e invadindo sua face, por um Estado que não lhe garantiu o direito de viver, de ter uma educação digna, uma saúde que compreenda que o sujeito vai além de sua anatomia (embora ela ainda seja um importante marcante social) e principalmente, da segurança da vida, de seus corpos e de sua subjetividade. Viver, sobreviver e estar vivo(a), quais desses direitos as políticas públicas atuais se efetivam? Em quantos casos elas se fizeram valer? Gostaria de encerrar essa primeira coluna, perguntando a Roberta da Silva, que em 2021 deve 40% do seu corpo queimado em pleno cenário Central das ruas de Recife, onde o Estado falhou? Onde eu e você, leitor, falhamos enquanto sociedade? Mas Roberta não pode mais falar, a matéria corpórea de Roberta já não está entre nós.

Ouço as vozes lá no fundo gritar: “Roberta presente!”. Mas Roberta... Roberta não está aqui.

Palloma Nathally Melo D’Andrade Lima, 10 do maio de 2022

Psicóloga Clínica e Social, Especialista em Neuropsicologia, Pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade e Mestranda em Psicologia e Saúde Mental pela UPE.

Foto: Travestis e transexuais lutam por direitos básicos, respeito e cidadania plena - Isa Gabriela/ Levante Popular da Juventude.